Conheça as novidades no ensino médio em 2022

Conheça as novidades no ensino médio em 2022

Os alunos que ingressarem no ensino médio a partir deste ano vão se deparar com uma novidade. O novo ensino médio, aprovado numa lei de 2017, passa a valer a partir deste ano letivo e vai mudar gradativamente o ensino em escolas públicas e privadas de todo o país.

Entre outros pontos, o novo formato prevê o aumento de horas letivas anuais, uma mudança na grade curricular e até no objetivo do próprio ensino médio.

O que antes poderia ser visto como uma preparação para o ensino superior vai passar a ter um olhar voltado ao mercado de trabalho. Isso porque a etapa de ensino será integrada a cursos técnicos que farão o aluno deixar o ensino médio com um diploma de uma área específica.

A carga horária vai aumentar

Todas as escolas públicas e privadas terão que expandir o tempo dedicado ao ensino médio já a partir deste ano. O tempo de aula que era de, em média, 4 horas por dia, passará a 5 horas por dia. Com isso, no final do ano, o aluno terá cumprido mil horas letivas anuais, um aumento de 200 horas em comparação com o modelo anterior.

Até 2024, quando a primeira turma do novo ensino médio deverá estar concluindo a fase de ensino, os alunos terão cumprido 3 mil horas letivas.

A lei não determina, no entanto, se o cumprimento da carga horária vai ser presencial ou à distância, mas a legislação permite que 30% do ensino médio noturno e 20% do diurno seja ministrado remotamente.

De acordo com o Censo da Educação Básica, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), 10,8% das matrículas de ensino médio em 2019 foram registradas em instituições de tempo integral.

A taxa foi maior na rede pública (11,7%) do que na rede privada (4,8%). As duas redes registraram o aumento que já vinha sendo observado desde 2015, quando a taxa total de matrícula em escola em tempo integral era de 5,9%.

Nova grade curricular

Outra grande mudança do novo modelo de ensino médio que entra em vigor neste ano é a grade curricular. As disciplinas passarão a ser áreas do conhecimento, modelo já conhecido no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e outros vestibulares. São elas:

linguagens e suas tecnologias;

matemática e suas tecnologias;

ciências da natureza e suas tecnologias;

ciências humanas e sociais aplicadas;

Estas áreas vão abranger todas as disciplinas que já são trabalhadas em aula atualmente. Portanto, nenhuma delas será removida da grade.

No novo modelo, os conteúdos serão trabalhadas de maneira integrada nas salas de aula. Assim, assuntos de artes poderão ser trabalhados junto aos conteúdos de história, por exemplo, integrando e relacionando duas áreas distintas.

Esta parte da grade curricular vai ocupar 60% do total de horas letivas, o equivalente a 1.800 horas, divididas entre 1º, 2º e 3º anos do ensino médio. No entanto, somente conteúdos de português e matemática serão trabalhados nos três anos letivos.

Projeto de vida

Mais uma novidade que passa a integrar o ensino médio em 2022 é o chamado “projeto de vida”. Este componente transversal será oferecido nas escolas para ajudar os jovens a entender suas aspirações, num estilo de orientação.

O objetivo é ajudar o aluno a compreender o que ele quer para seu futuro, ao mesmo tempo que entende como a escola pode ajudá-lo a alcançar esse objetivo. Isso deve ser refletido, por exemplo, na escolha da eletiva que o estudante vai cursar.

Não é especificado se esta orientação deve ser feita por um profissional especializado, como um psicólogo, ou se um professor ou profissional da unidade de ensino será responsabilizado pela função.

Itinerários formativos

Outra grande novidade do modelo que pode ser aplicada em 2022 são os itinerários formativos. Eles serão optativos, escolhidos de acordo com a vontade do estudante e da oferta da instituição. As escolas podem oferecer as aulas já a partir deste ano, mas só serão obrigatórias em 2023.

Goiás é um dos estados que vão implementar a modalidade neste ano. Os estudantes terão 17 opções à disposição (veja no gráfico abaixo). Já no Rio de Janeiro, as escolas estaduais só vão oferecer os itinerários em 2023.

As aulas serão compostas para se aprofundar nas quatro áreas do conhecimento e na formação técnica e profissional. O aluno deverá escolher um itinerário para compor sua grade e poderá optar por outros itinerários ao longo dos três anos caso deseje e caso a escola ofereça outra opção com vagas disponíveis.

Por lei, cada escola deve oferecer no mínimo duas opções para que o aluno possa escolher. No entanto, não há garantia que ele vá conseguir ingressar no curso de sua escolha, já que o número de vagas deve ser limitado.

Esta modalidade de aula vai ocupar os 40% restante do total de horas do ensino médio, chegando a 1.200 horas divididas pelos três anos da etapa escolar.

1- O que é o “Projeto de Vida” e quais os seus objetivos?

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC, documento que estipula o conteúdo e as habilidades que devem ser desenvolvidas pelas escolas) prevê o "Projeto de Vida" como um meio de o estudante exercer sua cidadania e tomar suas decisões com “liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade”.

São três pilares:

pessoal (aprender a lidar com os próprios sentimentos, respeitar seus limites, descobrir sua identidade, detectar suas principais habilidades e dificuldades, traçar seus desejos);

social (refletir sobre sua relação com familiares e colegas, pensar em formas de ajudar a comunidade, entender a realidade do seu entorno);

profissional (escolher por qual itinerário formativo vai optar ao longo do ensino médio, decidir se quer fazer faculdade ou curso técnico, pensar em uma carreira para o futuro).

Anna Helena Altenfelder, presidente do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (CENPEC), reforça que não é apenas uma orientação vocacional.

2- Como o “Projeto de Vida” será implementado, na prática?

O texto da reforma do ensino médio não estipula como o “Projeto de Vida” deve ser oferecido nas escolas.

Há diferentes possibilidades, explica Lordelo:

criar uma disciplina e escolher um professor específico para ela;

trabalhar o projeto como algo transversal, em que todos os docentes, em suas respectivas disciplinas, se mobilizem para detectar as vocações dos estudantes e desenvolver seus interesses.

Altenfelder diz que cada opção acima exige um cuidado diferente.

Na primeira, é preciso garantir que, por mais que o “Projeto de Vida” exista de forma autônoma como disciplina, não fique isolado dos outros componentes curriculares.

Na segunda, para o caso de ser um eixo transversal, os professores devem dialogar para evitar que haja apenas atividades isoladas em cada aula, sem ligação.

As redes têm liberdade para definir suas atividades. Veja alguns exemplos do que será proposto aos alunos das escolas estaduais de São Paulo:

projetos para intervir na comunidade;

organização de demandas escolares;

entrevistas com pessoas do bairro;

pesquisas sobre cursos técnicos e faculdades;

visitas a diferentes espaços de trabalho.

3- Quem serão os professores?

Se a escolha da escola for criar uma disciplina para o “Projeto de Vida”, ela pode escolher qualquer professor do seu corpo docente para ministrá-la. Não é necessário que seja um psicólogo, por exemplo.

O ideal é que se eleja um docente que tenha boa relação e proximidade com os alunos.

“As redes têm escolhido isso de formas diferentes. Algumas tomam como uma decisão administrativa, em vez de pedagógica. Pensam em quais professores estão com carga horária menor e encaixam na grade dele”, explica a presidente do Cenpec. “Isso não deve acontecer.”

Ela esclarece também que é preciso proporcionar ao docente uma formação continuada e articulada com os outros profissionais da escola.

4- Qual é a carga horária mínima?

No novo ensino médio, cada estudante poderá montar sua grade curricular, escolhendo as áreas nas quais se aprofundará.

A intenção é que sejam três anos de estudo com: conhecimentos básicos de cada disciplina (1.200 horas) + conteúdos focados nos objetivos pessoais e profissionais dos alunos (600 horas).

O “Projeto de Vida” não tem carga horária mínima estipulada - pode entrar tanto nas 1.200 horas da formação geral quanto nas 600 dos chamados itinerários formativos.

A escola também decide livremente se implementará o programa apenas no 1º ano do ensino médio, por exemplo, ou ao longo dos três anos. Pode até incluir o ensino fundamental, caso deseje.

5- O “Projeto de Vida” terá material didático?

O colégio pode adotar um material específico, mas não é algo obrigatório. O Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD - “cardápio” de livros que podem ser adotados pelas redes públicas de ensino) oferece opções de material de apoio para auxiliar os professores nas atividades.

6- Vai valer nota?

As escolas podem decidir se implementarão alguma avaliação nas atividades do “Projeto de Vida”.

Segundo Daher, da rede de Mato Grosso do Sul, será um desafio romper com o raciocínio de que só as atividades que recebem nota são importantes na escola.

“Queremos que o jovem enxergue um sentido no que está acontecendo na aula. Ele não é obrigado a ver vídeos no Youtube, por exemplo, mas escolhe assistir a eles. A intenção é criar esse mesmo interesse pelo ‘Projeto de Vida’”, diz.