IBGE retratam uma realidade dolorosa para milhões de brasileiros

IBGE retratam uma realidade dolorosa para milhões de brasileiros

Dados divulgados nesta quinta-feira (19) pelo IBGE retratam uma realidade dolorosa para milhões de brasileiros: a dificuldade financeira para se alimentar direito.

É uma visita rápida. No supermercado, Elen faz mais contas do que compras. O mais difícil é subtrair.

“Se eu for levar a farinha, tenho que levar o óleo, e eu não tenho dinheiro para o óleo, porque o óleo está muito caro. Então, prefiro levar o biscoito do que a farinha. Deixa para próxima”, diz Elen Lourdes da Silva.

Ela é mãe de dois filhos pequenos, mas nós não vamos encontrá-los fazendo compras.

“Evito trazer muito as crianças ao supermercado, sabe? Porque elas olham algo e querem”, revela Elen.

Sem as crianças, o único companheiro de compras é o próprio espanto.

“Gente! Meu Deus!”, exclama Elen ao olhar o preço de 1 kg de feijão.

Elen e o marido estão desempregados. A única renda garantida da família de quatro pessoas é o auxílio emergencial de R$ 250, condição que não permite nem chegar perto de algumas prateleiras.

Na lista de compras bem enxuta faltam nutrientes básicos. Corredores que ela nem visita, com vitaminas, proteínas...

A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE mostrou que, mesmo antes da pandemia, 41% da população brasileira viviam numa condição semelhante à da família da Elen, sem ter a certeza de levar para casa comida em quantidade e qualidade suficientes.

A pesquisa mediu essa preocupação em valores. Segundo o IBGE, em 2018, no Brasil, cada pessoa da família gastava em média R$ 209 por mês com alimentação. A pesquisa perguntou quanto os brasileiros precisariam gastar para comer o básico. A diferença entre o que está no carrinho e o que falta é de 66,7%. As respostas indicaram que o valor por pessoa teria que ser de R$ 348.

A POF é uma pesquisa muito detalhada, feita a cada cinco anos. Portanto, esses dados de 2018 refletem a situação em que o Brasil entrou na pandemia. Especialistas dizem que, desde então, o problema se agravou e atingiu um número cada vez maior de brasileiros.

“Só para ter um dado de comparação, nós estávamos na época da POF com uma taxa média de desemprego de 12%. Hoje, estamos com desemprego em torno de 14,5%”, disse o economista Ricardo Henriques. “E a gente não pode esquecer que o trabalho informal, que tradicionalmente funciona como um colchão de amortecimento das crises, nesse período da pandemia também não atuou dessa forma.”

A pesquisa também mostra que, no Brasil de antes da pandemia, os problemas financeiros iam muito além do supermercado. Quase metade da população (46,2%) vivia em 2018 numa família que tinha alguma conta em atraso, principalmente as despesas de água, luz ou gás (37,5%).

A fome transforma qualquer aperto financeiro numa questão urgente.

“Nós retrocedemos. A precarização associada à fome e à insegurança alimentar solicita esse título de urgência, para nós darmos conta do alivio imediato da pobreza. Nós precisamos de um bolsa família mais atualizado em termos de valor da transferência de renda e de quantidade de pessoas beneficiadas, mas, ao mesmo tempo, precisamos que esse bolsa família esteja integrado com outras políticas. Políticas de assistência social, políticas de saúde, políticas de prevenção da situação de desemprego”, afirma Henriques.

“Eu peguei um feijão, açúcar, arroz, leite, biscoito”, disse Elen.

A diferença entre a realidade atual e um emprego cabe no carrinho de compras.